quarta-feira, 2 de março de 2011

O vazio (ou a poesia dos nossos tempos)

O vazio é o começo de todas as coisas

Raymond Carver


Vamos falar do que não nos interessa. Do átimo, do gozo da escrita cuneiforme que é a poesia de nossos tempos. Na verdade, abrem-se vagas para criticar a formalidade que nossos jovens poetas têm. Uma coisa tão doentia é seguir preceitos, coisas anti-poéticas: meros capachos de teóricos...

Venho de tempos. Tempos em que a poesia era livre de jargões técnico-científicos. Livre dos bisturís teóricos e dos dissecamentos amiúde do nosso tempo. Parece que a síndrome da perfeição está presente em tudo, agora. Coisas que valham, talvez não existissem mais poetas e, aqueles que escrevem esse tipo irritante de texto, sejam efêmeros, longe daquilo que o verso proclama: liberdade. A exacerbada rebeldia deu lugar a um prognóstico literário em que tudo deve estar em seu devido lugar e ainda querem revolucionar com temas medíocres.

Tais são as fórmulas que poesia possui, na verdade, infinitas. Não há limites - teóricos ou físicos - para a poesia que querem (l)imitar, pois há muito mediocricidade na falta de liberdade e nessa eterna busca, incessante, de estar aquém das "regras literárias". Bem vindos, então, as literariedades da poesia limitada.

Os modelos existem para serem seguidos. Na real, os modelos poéticos não são, de certa forma, regra como já fizera Horácio ao regrar o verso. Por qual motivo a poesia não pode ser livre? Será a bem-aventurança da máquina moderna que não a faz escolher os temas e isso a deixa numa ditadura da estética? De fato, toda a literatura de hoje é medíocre (no sentido de médio mesmo), pois, além de aprisionarem a poesia, aprisionam-se também os escritores. Todos em nichos literários de um cômodo, sem dar espaço aos que vem por aí. Quando alguém pula a torre para novos ares, eles fazem questão de abatê-lo. Enfim, de fato, escrever é sentir o ar e o mundo ao redor, mas quando não há mundo nem ar fica difícil escrever. Então, dali surgem os novos românticos piegas em que, se tratando de idealização disforme, banham a natureza onde vivem de odes esdrúxulas de imaginativas referências. Apenas sonham o lugar onde vivem ao invés de escrevê-lo. E o leitor, que já não é um "por excelência" fica refém da mesmice recuperada e, de tanto esperar, desiste da leitura. Infelizmente, o que tange letras no contexto social está sofrendo uma erosão, pois agora, a literatura está sistematizada, catalogada, encaixotada e entregue a domicílio. E o novo se torna obsoleto antes mesmo chegar aos olhos do leitor.

Logo, diante do quadro pitoresco e avassalador que nenhum Kandinsky seria capaz de pintar, nossos olhos mornos de desejo literário esbarram no vazio que a literatura não deveria ser... Mas, daí poderia renascer, contudo, já está em outra história.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Nuança tecnológica


É díficil compreender o invisível. Contudo, para vê-lo, basta uma olhada dentro de si. As mesmas e fatigadas retinas ainda se desmontam pela busca incessante pelo inevitável encontro com o aquilo que não se faz visto pela visão (pela razão?).
Numa busca frenética pelo poder, pelo ser e pelo estar, o homem moderno incubiu a si mesmo o progresso, o ignorar as minúcias do invisível e o desrepeitar os limites deste. O metron foi transpassado pela tecnológica espada de dois gumes empunhada pelo indivíduo moderno e terceiro-milenar.
Os dias são relances de dias que passam por nossas retinas. Todos os dias são todos os dias de novo. Nada mais a frente, nada além do que já sabe, pois, quando o destino não dá mais as cartas, os deuses viram homens e estes viram lembranças. Por quanto, o que há de singular em viver um dia que não se baseia na incerteza (ou, até mesmo, na certeza)? E, falando em certeza, onde ela reside? No imaginário popular? A semântica da certeza é coisa sem significado, pois a própria palavra ainda é vazia por ser cheia de dúvidas. A incerteza provém da pergunta, mas, o caminho da pergunta e da dúvida está impedido pelo relance diário das mesmas ilusões - trabalho, família, carro, mídia... - onde há tempo para a dúvida quando não há tempo? O que além da semântica da incerteza é o mero acaso. O acaso de se ver preso por uma rotina tortuosa e bruscamente alienada por verossímeis imagens.
Por hora, as retinas, agora ofuscadas pelo lado obscuro da certeza vã, dados arremessados pela maratona ufanista e vil dos anos de wireless, silício e kevlar do século XXI, se detem a olhar um mundo cosmopolita em certos aspectos. Contudo, como é difícil ver pelo mundo aberto, ainda é difícil compreender o invisível.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Céu pela janela


Certa vez o dia resolveu dar a graça de céu azul como há muito não se via. Distante, a serra, já encoberta pelo prédios da cidade vertical que nascia, mostrava apenas o cume permeado de verde e de palmeiras que brotavam aqui e acolá. Mais a adiante, no campo de visão, via-se as árvores encobrirem a queda d'água de tantos versos, linhas, amores e tragédias que enfeitava a cidade da índia cosmopolita. Há tempos, água da mesma bica já se extinguira, contudo, o inverso que vem do sul trouxe as águas do céu para que as nascentes e cabeceiras fossem banhadas mais uma vez e dando a bica de Iracema mais uma amostra de força e de beleza. Entretanto, as árvores da rua cobriram a visão da bica e os prédios, a visão da serra. Restou o céu azul sobre as coisas...
O céu era espelhado pelos para-brisas dos carros parados na rua. Pelos olhares afortunados que, de vez em quando, davam amostras de se importarem com o que havia sobre nós. Pelos sentimentos de nuvem que pairavam aqui no chão, dando a entender que todos, em dia de céu azul, andavam com as cabeças perdidas no azul celeste acima do mundo. Acima do mar, (e eu longe dele!) só poderia estar o mesmo azul...
Contudo, outro azul aponta do horizonte, é o azul da chuva... As nuvem afastadas que anunciam a tempestade que se aproxima. O céu azul logo se rebela e as nuvens surgem para machar aquela cor imaculada e o sol se esconde por trás delas. Ainda na janela, permeneço atento até ver que a chuva encobre como se um véu branco encobrisse a paisagem tela por tela, metro por metro... Logo o céu azul dá espaço as nuvens carregadas de águas e eletricidade.
A chuva, enfim, cai sobre os para-brisas, sobre os olhares, sobre as pessoas de céu. Mas, nada parece se mexer, os olhares se mantêm para cima, vendo a chuva que cai, os para-brisas ainda refletem o azul do céu, de certa forma e as pessoas ainda flutuam como se fossem pássaros perdidos em meio a baixa pressão do ar naquele momento de chuva. Nada, senão o gesto de a janela permanecer aberta, enquanto o escritor que definia o azul do céu pela janela, é definido pela chuva que cai... Através de uma janela aberta.

sábado, 20 de novembro de 2010

Dia do consciente...


Por mais estranho que soe, mas não leva a nada ter um dia assim voltado ao consciente...
Aqui dentro, dentro das linhas, pode até caber as inúmeras falas resgatadas por repóteres, cronistas, poetas e gente má que nem lê, sobre o que hoje significa.
Belas culturas? A arte e a literatura? Os preconceitos? Os abusos e diferenças ainda visíveis? Bem, um tanto quanto promíscuo afirmar que hoje é um dia especial. Sério!
Como o dia de tantos mártires pode ser especial? Como se pode comemorar o dia da consciência, se esta ainda fala aos cochichos para os mais surdos ouvidos da sociedade?
Manifesta-se a cultura, mas que a dança ainda vingue pelas ladeiras do ser, pois por onde a consciência ainda não impera, morre-se o de pele preta de fome e de frio e, enquanto somos mídias, fingimos de cego para o descartar de sonhos que levam multidões ao matadouro da falta de ajuda.
Não há, senhores e senhoras, traição maior do que se abster da realidade. A cultura merece sim ser festejada, mas não em doses industriais. Quanto ao nascer do sol da liberdade, bem que se poderia encontrar dentro dos olhos perdidos da crianas famintas uma dose de consciência corrompida. A quimera de todos nós, de nosso tempos ainda, é a indiferença e esta ainda se alimenta de pecados enterrados por nós, mas nunca mortos. Feliz consciência, quem sabe...

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Brisa e Beethoven


O dia terminou como de costume... Ao som de Beethoven.
E as mazelas se vão nos últimos acordes da sinfonia. Por onde quer que eu ande, ainda consigo ouvir um pouco de Beethoven pelas ruas. Aos prantos, aos montes, acordes soltos da melodia feita de cimento e cal da cidade que cresce.
Cresce, por si mesma, em meio a lama-politicalha assombrosa (contudo, não sujemos o texto e voltemos a Beethoven). Sim, claro, além dos prédios dominantes, ainda ressoa o eco das melodiosas tardes de novembro, quando o verão começa a se render a brisa mais suave e fresca vinda do leste que tenta, a duras penas, ganhar as vielas e transpassar janelas, atravessar corpos em movimento e fios de alta-tensão. O que importa é a brisa, pois nunca se pararam para se ver no meio da brisa que fervilham folham mortas por cima de nossas cabeças? Que o dia finde, então.
O dia que finda trouxe o tédio de tantos outros. Veio a ilusão do bom senso, mas não sobrou luz de entendimento em canto algum, pois, como é de costume, fugiram-se os diferenciadores, deixando-nos a mercê das incalculáveis mazelas da irresponsabilidade cívica (ou o que valha!). Sociedade que não sente a brisa, não se sente por si mesma. Definitivamente, enquanto soava Beethoven nos meus alto-falantes, a rua rugia sons guturais, de quem manda e de quem obedece. Por tantas vezes calado foi o vento da tarde quente que ecoava pelas ruas vazias dos domingos da cidade.
Mas o que cresce no seio da cidade-mãe é a revolta contra a passividade moderada dos "filhos deste solo". De prantos em prantos, revoltas caladas no meio da noite, a brisa novembrina começa a dissipar e o que sobra ainda é inferno aos olhos dos outros. Portos a parte, o navio renova a marcha oceânica em busca de poesia (que ainda não é tudo que necessitamos!), pois de tudo que é concreto, a alma ainda prevalece.
O dia renasce como de costume... Ao som de Beethoven...

domingo, 14 de novembro de 2010

Puro improvável.

A cada dia que passa, o mais improvável se repete.
Invariavelmente, somos todos abduzidos pela mídia, em busca de ar, em busca de tédio ou de qualquer distração insensata que nos faça olhar para a cara do outro e dizer: "vou dormir..." e abrir aquele bocão de "'tô nem aí". Simplesemente, improvável. A rotina é improvável.
Espaço...
Somos os que ainda se remexem na lama do comum e achamos tudo tão bonito. A vitória da Dilma, o menino que viu um gato na árvore... Um bebê. Somos o comum do bom senso e o desuso do alvorecer. Farto, sim, esse cronista que vos fala, está. Quando as teclas me parecem mudas, não há bem o que se tirar delas, mesmo que a batemos com toda nossa força e o "f" fique preso e se repita tantas vezes. Crônica é o que se fala no dia, certo? Mas o dia é tão improvável que fica difícil falar do que não se pode ver. Há ainda algo, de certo, por trás das linhas da televisão ou nas ondas do rádio, mas, confesso, não posso ver assim com essa claridade toda.
Comumente acordo, tomo café (aqui, acolá: não é uma prática usual minha, que o diga minha mulher), assisto tv quando estou em casa (isso é: nunca.). Enfim, o que se há de bom na rotina senão o que é improvável. Prove-me que há vida além da rotina...
Última linha dessa crônica e ainda não vi algo de bom. Talvez ser escritor é ser assim: procurar, só depois, um sentido para tudo que se escreve. Há quem o ache antes mesmo de escrever. Mas, não espere que esse cronista que vos fala, coloque lenha na fogueira das vaidades com coisas usuais e domínio público. A mídia está aí, e a opinião pública também.
Seja o que Deus quiser... Se assim for, ateísmo a parte (de alguns leitores) seja o que quer o acaso.
Na dúvida, liguem...

Crônica à brasileira.


Ao sinal:
- Ei, me dá um real aí, tio?
- Não tenho mais nada, o mercantil foi caro, moleque...
- Ô, tio... Dá aí, pra eu comer...
- Sai do meio se não tu morre, moleque!
Ao bodegueiro:
- Ei, me dá um biscoito aí, tio?
- Depende: tem real aí?
- Tem não, senhor... Me dá aí, só um...
- Traz um real que te dou um pacote...
- Tem não, senhor...
- O biscoito 'tá caro, menino, até pra eu comprar!
Ao restaurante:
- Ei, dá um pedacinho aí, tio?
- Ô, moleque, sobrou não, veio pouquinho: 'tava caro...
- Mas dá só o molho, já engana...
- Sobrou não, moleque... Sai logo ou o garçon te enxota...
Ao comício:
- Ei, tio, me dá...
- Se afasta, moleque, deixa o dr. governador passar...
- Espera, diz moleque...
- Ei, tio, vê se dá um desconto no imposto pra sobrar esmola e comida pra eu...
Fim da crônica à brasileira...

Originalmente publicado no site "Recanto das Letras" em 5 de maio de 2 mil e 10,
qualquer vínculo com a polítca é mera coincidência...