segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Brisa e Beethoven


O dia terminou como de costume... Ao som de Beethoven.
E as mazelas se vão nos últimos acordes da sinfonia. Por onde quer que eu ande, ainda consigo ouvir um pouco de Beethoven pelas ruas. Aos prantos, aos montes, acordes soltos da melodia feita de cimento e cal da cidade que cresce.
Cresce, por si mesma, em meio a lama-politicalha assombrosa (contudo, não sujemos o texto e voltemos a Beethoven). Sim, claro, além dos prédios dominantes, ainda ressoa o eco das melodiosas tardes de novembro, quando o verão começa a se render a brisa mais suave e fresca vinda do leste que tenta, a duras penas, ganhar as vielas e transpassar janelas, atravessar corpos em movimento e fios de alta-tensão. O que importa é a brisa, pois nunca se pararam para se ver no meio da brisa que fervilham folham mortas por cima de nossas cabeças? Que o dia finde, então.
O dia que finda trouxe o tédio de tantos outros. Veio a ilusão do bom senso, mas não sobrou luz de entendimento em canto algum, pois, como é de costume, fugiram-se os diferenciadores, deixando-nos a mercê das incalculáveis mazelas da irresponsabilidade cívica (ou o que valha!). Sociedade que não sente a brisa, não se sente por si mesma. Definitivamente, enquanto soava Beethoven nos meus alto-falantes, a rua rugia sons guturais, de quem manda e de quem obedece. Por tantas vezes calado foi o vento da tarde quente que ecoava pelas ruas vazias dos domingos da cidade.
Mas o que cresce no seio da cidade-mãe é a revolta contra a passividade moderada dos "filhos deste solo". De prantos em prantos, revoltas caladas no meio da noite, a brisa novembrina começa a dissipar e o que sobra ainda é inferno aos olhos dos outros. Portos a parte, o navio renova a marcha oceânica em busca de poesia (que ainda não é tudo que necessitamos!), pois de tudo que é concreto, a alma ainda prevalece.
O dia renasce como de costume... Ao som de Beethoven...

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