segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Céu pela janela


Certa vez o dia resolveu dar a graça de céu azul como há muito não se via. Distante, a serra, já encoberta pelo prédios da cidade vertical que nascia, mostrava apenas o cume permeado de verde e de palmeiras que brotavam aqui e acolá. Mais a adiante, no campo de visão, via-se as árvores encobrirem a queda d'água de tantos versos, linhas, amores e tragédias que enfeitava a cidade da índia cosmopolita. Há tempos, água da mesma bica já se extinguira, contudo, o inverso que vem do sul trouxe as águas do céu para que as nascentes e cabeceiras fossem banhadas mais uma vez e dando a bica de Iracema mais uma amostra de força e de beleza. Entretanto, as árvores da rua cobriram a visão da bica e os prédios, a visão da serra. Restou o céu azul sobre as coisas...
O céu era espelhado pelos para-brisas dos carros parados na rua. Pelos olhares afortunados que, de vez em quando, davam amostras de se importarem com o que havia sobre nós. Pelos sentimentos de nuvem que pairavam aqui no chão, dando a entender que todos, em dia de céu azul, andavam com as cabeças perdidas no azul celeste acima do mundo. Acima do mar, (e eu longe dele!) só poderia estar o mesmo azul...
Contudo, outro azul aponta do horizonte, é o azul da chuva... As nuvem afastadas que anunciam a tempestade que se aproxima. O céu azul logo se rebela e as nuvens surgem para machar aquela cor imaculada e o sol se esconde por trás delas. Ainda na janela, permeneço atento até ver que a chuva encobre como se um véu branco encobrisse a paisagem tela por tela, metro por metro... Logo o céu azul dá espaço as nuvens carregadas de águas e eletricidade.
A chuva, enfim, cai sobre os para-brisas, sobre os olhares, sobre as pessoas de céu. Mas, nada parece se mexer, os olhares se mantêm para cima, vendo a chuva que cai, os para-brisas ainda refletem o azul do céu, de certa forma e as pessoas ainda flutuam como se fossem pássaros perdidos em meio a baixa pressão do ar naquele momento de chuva. Nada, senão o gesto de a janela permanecer aberta, enquanto o escritor que definia o azul do céu pela janela, é definido pela chuva que cai... Através de uma janela aberta.

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